“A cidade era quase toda de pedra redonda. A Praça da Matriz e a Praça Doutor Carlos eram terra pura. Quando saíamos paras as praças e festas, vestíamos as melhores roupas. Mas as cavalhadas passavam e levantavam uma poeira doida”. (Foto: Solon Queiroz)
ENTREVISTA
Amada amante
Ela brincou, dançou, cantou, cresceu. Estudou, formou, leu, escreveu, amou. E como amou. Aos 97 anos e com muita humildade, Yvonne Silveira lembra do que já fez pela nossa cultura. O olhar singelo, o sorriso puro e a doce voz feminina revelam que a eterna jovem tenha vivido um verdadeiro conto de fadas ao lado do príncipe encantado.
Autora das mais belas crônicas, contos e livros, dona Yvonne prefere ser chamada de professora. Entre a modéstia de uma novata e a experiência de uma mestra, ela nos recebeu para a entrevista e agradeceu por ainda ser lembrada. Seria possível esquecer a presidente da Academia Montes-clarense de Letras? Quem agradece somos nós, dona Yvonne, e a sua querida Montes Claros.
Tempo: Nasceu em 1914. Montes Claros era uma cidade jovem ainda. Quais as lembranças que tem daquela época?
Yvonne Silveira: Lembro da minha vida após os seis, sete anos, quando comecei a observar melhor as coisas. Quando era pequena minha mãe me matriculou no Grupo Gonçalves Chaves, o primeiro grupo escolar da cidade. A cidade era quase toda de pedra redonda. A Praça da Matriz e a Praça Doutor Carlos eram terra pura. Quando saíamos paras as praças e festas, vestíamos as melhores roupas. Mas as cavalhadas passavam e levantavam uma poeira doida.
Tempo: Quais festas eram essas?
Yvonne Silveira: As mais importantes da cidade. Eram realizadas na Praça da Matriz. Imagine as Festas de Agosto?
Tempo: O que aconteciam nesses eventos? Shows, apresentações culturais?
Yvonne Silveira: Eram as mesmas coisas de hoje. Apresentações de Catopés, Marujadas, Caboclinhas. Tinham as cavalhadas, os reis e rainhas, que ofereciam o almoço para a sociedade. Era uma festa grã fina, porque não havia clubes nem esse desenvolvimento social de hoje. As festas se resumiam nas festas de igreja, as missas, procissões, leilões, festas de agosto, e festas de aniversários e casamentos. Mais tarde é que foi criado um clube, ali onde hoje é o Edifício Diu Colares. Em uma casa que tinha sido a primeira Santa Casa. Nesse clube havia os encontros.
Tempo: Como chamava este clube?
Yvonne Silveira: Clube de Montes Claros. Não estou bem certa, só adulto que frequentava. Meus pais iam muito.
Tempo: Não ficava com vontade de ir com eles para saber como era?
Yvonne Silveira: Eu tinha uns 10 anos e chorava pra ir. Eles me levaram duas vezes. Sou a primeira filha, então eu era muito adulada.
Tempo: E depois vieram quantos irmãos?
Yvonne Silveira: Nós éramos oito. Sou a mais velha e estou viva até hoje, os outros morreram. Só tem eu e a caçula.
Tempo: Continuou os estudos depois de passar pelo grupo Gonçalves Chaves?
Fiz um curso de adaptação e matriculei na Escola Normal, onde era o prédio da Fafil (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras). No entanto, meu pai teve um problema financeiro e nós mudamos para Francisco Sá, naquele tempo, Brejo das Almas. Lá era uma praça e três ruas, não tinha água canalizada nem luz, não tinha nada!
Tempo: Seu pai trabalhava com o que?
Yvonne Silveira: Ele era farmacêutico. Foi um homem muito importante, um grande orador, vereador da Câmara por três mandatos. Ele se chamava Antônio Ferreira de Oliveira, mas tinha o apelido de Niquinho de Oliveira. A farmácia era ali naquela esquina da praça Dr. Carlos com a rua Camilo Prates. Até hoje funciona uma drogaria no ponto.
Tempo: Ele montou uma farmácia no Brejo Também?
Yvonne Silveira: Não, ele foi dar nome à farmácia de um cunhado de Olinto da Silveira, meu marido.
Tempo: Já era casada?
Eu ainda era muito nova, nem sabia quem era Olinto. Mas no dia em que cheguei no Brejo ele começou a passar para lá e para cá de bicicleta me olhando. Quando fiz 14 anos começamos namorar. Casamos quatro anos mais tarde.
Confira a entrevista completa na Revista TEMPO. Já nas bancas.
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