É preciso muita atenção ao atravessar a rodovia. Os moradores do distrito do Barracão, em Francisco Sá, sonham com uma passarela ou com a instalação de radares para evitar acidentes
TRÂNSITO
BR-251: O CAMINHO DAS CRUZES
Os 360 quilômetros que separam Montes Claros da BR-116 representam um dos trechos mais problemáticos e perigosos da BR-251. Uma rodovia marcada por milhares de acidentes. O cheiro da morte está pelas retas e em cada curva. Para reduzir os sangrentos números das estatísticas, a sociedade se mobiliza e luta pela duplicação da pista. Se a duplicação não vier, que se faça uma reforma efetiva, com a recuperação do asfalto, a criação da terceira faixa, acostamento e o aumento da fiscalização. Essa é a bandeira que a Revista Tempo levanta
Era tarde, quase noite, de 1992, quando o barulho dos freios do caminhão ressoou por mais de 300 metros no quilômetro 443. No asfalto da BR-251, restaram os rastros de pneu, a tristeza e a saudade. O motorista fugiu sem olhar para trás, levando na boleia a vida de Antônia Ferreira de Souza, de 52 anos. As últimas lembranças foram a marca e o modelo do caminhão.
Da porta do bar onde trabalha, Lucimar de Souza observa a rodovia que levou a vida da mãe. Ela revive a dor da partida diariamente ao ter que atravessar a terra batida cortada ao meio pelo asfalto. “Quando escuto uma freada, sinto aflição e desespero, imagino logo alguém no chão, sem vida”, desabafa. “Ela andava por aqui todos os dias, fazia este caminho sempre e estava mais que acostumada. É uma dor que não tem fim e que o tempo não apaga”, emociona-se.
Após torna-se distrito de Montes Claros, em 1867, a cidade hoje conhecida como Francisco Sá foi denominada “Brejo das Almas”. O nome dado à época fazia referência às vítimas de assassinato que supostamente seriam jogadas em uma lagoa. Mas atualmente, o nome pode ser relacionado com as vidas perdidas em acidentes ao longo da extensão da 251, que corta o município.
Morte”, a poucos quilômetros da cidade, os acidentes não permitem uma segunda chance. No local, existem várias cruzes, quatro delas são de vidas que começaram e terminaram em uma mesma curva. Em cima de um mesmo barranco há dois nomes, um ainda preserva todas as letras e a data da partida, 2 de fevereiro de 1986, no outro, a identificação foi consumida pelo tempo. Embaixo delas, tristemente pintadas de preto, pedaços de pneus, borrachas e uma parte da lataria de um caminhão que ainda preserva intacto o número de registro de transportadores rodoviários de carga. No asfalto, marcas dos que se foram bruscamente e dos que, por sorte, conseguiram escapar da morte. No ar, predomina o cheiro das freadas desesperadas.
Todos os dias, Maria Aparecida Barbosa percorre a BR-251, em Francisco Sá. O trajeto é o caminho da dor e da saudade. Dez anos se passaram, mas os últimos passos do filho ainda estão às margens da rodovia. Carlos Alberto Barbosa da Silva morreu em 27 de dezembro de 2003, aos 17 anos, quando voltava de bicicleta da casa da avó. “O motorista do caminhão que o atropelou queria me conhecer, mas jamais quero vê-lo, ele levou uma parte da minha vida embora, para bem longe de mim”, diz revoltada.
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